Bom Gosto

Um pouco mais de um ano da Pandemia do Coronavírus: o que temos aprendido sobre perdas?

Lidamos com o luto e perdas quando somos capazes de aceita-las, mas e se naturalizamos a dor e o sofrimento, sem ressignificar, lhes dar um sentido ou chegar a sua raiz, de que maneira iremos dialogar?

Por Psicóloga Karina P. de Paula em 20/05/2021 às 13:15:37

Soube de um fato que ocorreu em 22 de abril desse ano: um garoto, chamado Caio, iria completar 9 anos de idade e, quando descobriu que seu pai não iria vê-lo nesse dia, resolveu discar o 190: "Vocês podiam mandar uma viatura lá no (bairro) Patrimônio? É porque meu pai, meu aniversário é amanhã, aí ele tá falando que não vai vir aqui pra mim ver, falando que não vai vir pra me dar parabéns", disse ele quando perguntado qual era a ocorrência. A história termina com um final feliz, os policiais se reúnem, fazem uma vaquinha para celebrar o aniversário de Caio, e o melhor presente: seu pai foi lhe dar os parabéns!

Tento imaginar o que se passou na cabeça do menino, ficar sem a presença do pai aparentemente lhe parece grave, tão grave e angustiante que era necessário a intervenção da Polícia Militar. Isto me atravessou de alguma forma: Caio recorreu a polícia, o imaginário infantil tentou solucionar sua falta com esse pedido de socorro, mas e quando somos nós, sociedade, lidando com faltas, perdas, luto, estamos recorrendo a quem ou a o que?

Não temos o costume cultural de aprender e ensinar sobre perdas, e aqui cabe toda perda que lhe dói, todos são processos de luto. Embora saibamos de todas estas questões, não buscamos compreender esse processo para saber lidar de forma adequada com momentos de dor, sem grandes prejuízos. Talvez você já tenha ouvido falar sobre as fases do luto: apatia, negação, raiva, depressão e aceitação. Quando lidamos com perdas de forma saudável, e sim, isso é possível e pode ser saudável, concluímos um ciclo, damos um sentido a nossa perda e prosseguimos com a nossa vida.

Mesmo com tudo isso, diria que o que nos deixa muito inquietos, é que a vivência em meio a uma pandemia não tem prazo de término. Como concluir um ciclo sem vigência? Oque nos norteia ou socorre? Por isso, caro leitor, não estranhe encontrar alguns cheios de raiva (e com razão), alguns que, mesmo após tanto tempo permanecem em negação, outros com total apatia e sintomas depressivos. Já falamos anteriormente, se um ciclo não se encerra ele tende a se repetir. Em qual momento você está?

Quando pensamos na vida o que vem à mente sempre são as alegrias, conquistas, projetos, vitórias, felicidade e esquecemos que não é sempre assim, nossas vidas são como linhas e linhas de um retalho onde se cruzam dores e alegrias, e estes podem deixar marcas e feridas cujas cicatrizes sempre vão estar ali. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade quando em fim a dor da perda vem nos afligir.

Durante essa semana me lembrei de Severino. Qual Severino? "É o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba..." Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é retratado sobre um viajante que sai do Nordeste para tentar uma vida melhor na cidade grande, mas aonde ele chega lhe é natural tratar sobre o luto e as perdas. E acho que por isso me lembrei deste texto. É dito bem no início, que existem muito Severinos, semelhantes em tudo na vida, "E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte Severina." Doenças, velhice (antes dos trinta), violência, o autor destaca vários motivos que são comuns aquele povo. A despedida e a perda fazem parte da história, estrutura e vivência destes, entra em contraste e em compreensão as contradições sociais.

Conjecturando, a fase final do luto é a aceitação e a possibilidade de prosseguir de forma saudável. Estive pensando: lidamos com o luto e perdas quando somos capazes de aceita-las, mas e se naturalizamos a dor e o sofrimento, sem ressignificar, lhes dar um sentido ou chegar a sua raiz, de que maneira iremos dialogar? Estamos falando dos nossos dias, quando chegaremos a aceitação? Por fim, ressalto, aceitar não é ficar imóvel, mas se reconstruir a partir daquilo que, em algum momento, lhe fez sofrer.

Nas palavras de Maria Bethânia, a arte existe porque a vida não basta. Tenho me aproximado e me recordado muito mais de poesias e várias outras expressões artísticas que me ajudam a refletir e também a implicar, que me atravessam ou trazem insights, encontrarão muito disto por aqui. Finalizo com a parte final do texto citado por aqui, quem melhor pra falar de vida e reconstrução se não quem há muito entende de perder e morrer? Até a próxima semana!

"- Severino, retirante,

Deixe agora que lhe diga:

Eu não sei bem a resposta

Da pergunta que fazia,

Se não vale mais saltar

Fora da ponte e da vida;

Nem conheço essa resposta,

Se quer mesmo que lhe diga

É difícil defender,

Só com palavras, a vida,

Ainda mais quando ela é

Esta que vê, Severina

Mas se responder não pude

À pergunta que fazia,

Ela, a vida, a respondeu

Com sua presença viva.

E não há melhor resposta

Que o espetáculo da vida:

Vê-la desfiar seu fio,

Que também se chama vida,

Ver a fábrica que ela mesma,

Teimosamente, se fabrica,

Vê-la brotar como há pouco

Em nova vida explodida;

Mesmo quando é assim pequena

A explosão, como a ocorrida;

Como a de há pouco, franzina;

Mesmo quando é a explosão

De uma vida Severina."

Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto (1955).

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